quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

ALBUM REVIEW | AI - WA to YO (2017)


E aí que já estamos em dezembro. Isso por si só já desperta em todo mundo aquela sensação chata de "ain, o ano passou e não aproveitei quase nadaaa...", que é totalmente normal do ser humano conectado à internet na atualidade, já que a quantidade de informação gerada é bastante desproporcional ao tempo que todos temos para consumir o que sai. Vendo pelo meu lado, que sou blogueirinho digital influencer em ascensão, tenho total ciência de que não vi/cobri metade das coisas legais que rolaram nos últimos meses.

Essa introdução enorme é apenas para informar que tentarei, nos próximos dias, comentar com um pouco mais de profundidade uns trecos que rolaram em 2017, mas que acabaram passando batidos aqui no blog. Parte disso é pela dobradinha de falta de pauta quente/excesso de tempo livre meu? Sim. No entanto, serve também para que minhas listas de final de ano aqui não fiquem tão aleatórias, com uma porção de bagulhos que nem passei por cima nesse tempo todo.

Enfim, a primeira resenha vai ser a do que eu considero, até então, o melhor álbum Pop que escutei esse ano: WA to YO, da AI...

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Pra quem não conhece, a AI é uma cantora/rapper italo-nipo-americana, nascida na Califórnia, que está aí na cena do Pop/Urban japonês desde o início dos anos 2000. Assim como várias cantoras japas da época, ela foi daquelas que, era a era, foi construindo uma boa base da fãs, com as vendas crescendo, até que atingiu seu ápice. Da segunda metade da década passada pra cá, acabou não conseguindo se superar, mas manteve um nome forte o bastante para continuar na indústria.

Lembro de já ter escutado bastante coisa dela na época que comecei a desbravar o mundo do J-Pop pelas internetes, mas a real é que, por nenhuma razão, a AI nunca acabou entrando num panteão de favoritismo meu, não permanecendo em minhas playlists com o passar do tempo. Talvez por isso eu não tenha criado qualquer expectativa quando foi anunciado que ela voltaria esse ano. E talvez por isso eu tenha me surpreendido tanto.

Intitulado como "WA to Yo" (ou "Japanese vs. Western"), o álbum duplo traz um conceito bem forte e fechado dentro dele. Há uma linha urban/R&B/soul que lhe serve de guia, mas em sua primeira parte, a AI explora alguns elementos sonoros tipicamente associáveis à cultura e ao folclore nipônico, cantado em japonês. Na segunda, com as músicas cantadas em inglês, tais elementos são deixados de lado, apostando numa pegada contemporânea ocidental.

Tudo isso poderia ser uma embromação sem tamanho caso a tracklist do LP não se sustentasse pro si só (pode entrar, "W Face"). Só que, surpreendentemente, as músicas nele são absurdamente boas, rolam legal dentro da proposta do álbum e ainda funcionam isoladamente fora dele. Ou seja, o "WA to YO" é um exemplo perfeito de como álbuns Pop deveriam ser feitos.



WA Interlude serve de introdução e encapsula bem o conceito do álbum e o que virá em seguida. Temos ela e um mano mandando umas rimas por cima de algo que facilmente poderia ser usado como hino cerimonial de alguma... Cerimônia japonesa que eu não sei o nome. Talvez seja uma intro longa demais para ser nomeada como tal, mas serve de porta de entrada perfeitamente.

Em Wonderful World, parceria com o grupo new age Himekami, isso é ainda mais ampliado. É meio bobão falar isso em um blog que não costuma se levar a sério como esse, mas "Wonderful World" é o tipo de faixa que acaba sendo difícil de explicar em palavras, que precisa ser... Sentida. Toda ela é recheada de camadas sonoras, de texturas e pequenos momentos que a tornam ainda melhor a cada ouvida. É futurista ao mesmo tempo que soa antiga e tradicional. É como se "Ghost In The Shell" e "Samurai X" se encontrassem. Emociona e entretêm. Além de tudo, é explicitamente Pop. Minha favorita do álbum e, provavelmente, desse ano como um todo.

From Zero é uma balada lindíssima. É o tipo de treco motivacional e emotivo para dar um sopro de esperança nos momentos difíceis. Poderia cair numa zona de conforto piegas, exagerada, mas a flautinha-cena-triste-de-Naruto a tira do lugar comum. E, porra, a voz da AI é linda pra caralho. Quase qualquer coisa que ela cante nessa linha é capaz de transportar o ouvinte para dimensões emocionais de modo invejável.



Essa tática de baladão motivacional + elementos tradicionais no instrumental é reutilizada algumas vezes mais pra frente na tracklist. Primeiro, em Feel It, que é uma das mais legais em todo ele, inserindo esses signos num andamento R&B bastante pomposo, resultando numa das produções mais bonitas do álbum. O vocal dela, em particular, me agrada bastante nessa. Depois, em Music Is My Life, que encerra o lado "WA", ainda outra balada bem bonita de ouvir.

At the End, Justice Always Wins foi usada como single de divulgação do material e isso faz bastante sentido, pois ela grita à números urban radiofônicos. O refrão repetindo "Saigo wa Kanarazu Seigi ga Katsu" exaustivamente é grudento demais e tudo nela acerta na proposta de montar algo de fácil audição, mas ainda assim no fio condutor do tema. No caso, os sintetizadores eletrônicos parecem ter sido tirados de um jogo de NES e, por si só, isso já é japonês demais, ainda que não clássico.



I Can Pretend também é tão ótima. É um dos momentos mais urban dessa primeira parte, com ela sabendo dosar bem a diferença entre o delivery vocal nas partes de rap e nas cantadas. Poderia facilmente ser uma OST de algum anime da temporada. Sério, quando entra a flauta, é de arrepiar os pelinhos das costas.

Só que, instrumentalmente, o que vem depois disso acaba fugindo à temática do álbum. Mas, olha, não é como se as músicas dessa raspa não fossem de boas para ótimas não. Gui Gui Nan vai mais numa mistura entre doo-wop, Pop e Soul. É dançante e meio boba, mas no bom sentido. O resultado disso é uma delícia retrô descompromissada, então, não há do que reclamar em qualidade.

Home é uma balada exageradíssima e absurdamente datada, funcionando justamente por isso. Me soa como uma música de vídeo de casamento nos anos 90, frequentemente repetida em karaokês, sendo ainda outra grande destaque de 2017. Já It's Gonna Be Alright é o Pop/R&B basicão e obrigatório em álbuns de solistas, mas o vocal sentimental da AI meio que eleva o nível, deixando-a bem melhor do que seria se qualquer outra pessoa a tivesse gravado.



10 faixas passadas, é hora do lado "YO" dar as caras. E ele surge muito bem na intro que dá nome à essa segunda parte. Os sintetizadores vão na linha do que era feito quando começaram a mesclar dance com R&B no início da década passada, ganhando ainda mais pontos pelo já citado vocal arrepiante da AI.

E então, é hora de farofa. Welcome To My City, com a participação do cantor jamaicano Junior Reid e do americano Eric Bellinger, é tudinho o que se espera de uma farofa Urban para pagar de mina fodona na quebrada. É agressiva, mas melódica o bastante para ainda soar Pop, despertando uma vontade louca de mexer a raba do início ao fim.

Right Now, regravação de uma música de mesmo nome do Chris Brown, é um bom jam, mais pro lado da sensualidade, mas a participação dele aqui é inútil, não acrescenta absolutamente nada à música, já que seu estilo vocal é bem parecido com o da própria AI e eles acabam engolindo um ao outro em comparação. E, né, é o Chris Brown. Pra que, bicho? Será que só liberaram os direitos da música se ele participasse? Vai saber.



Felizmente, as coisas voltam ao nível em What I Want, outra bobagem farofeira com ela e o mano lá da intro do "WA" explodindo em deboche e autoconfiança numa das melhores coisas do "YO". É grude demais, chiclete. Dá pra perceber o quanto eles se divertiram fazendo isso.

E o final do álbum traz ainda mais três baladões que ganham luz pela boa interpretação vocal da AI. Crazy Love é o que, instrumentalmente, se destaca mais, com algumas variações de sintetizadores surgindo em diferentes momentos da faixa. Mas The One You Need e Sweet Nothing's também são boas, embora não fujam tanto do lugar comum, sendo mais carregadas pelo vocal que pela produção em si.



O gosto que fica ao final é absurdamente bom e satisfatório. O "WA to YO" não chega a ser um álbum perfeito, visto, muito mais em sua segunda metade, rolarem algumas escolhas óbvias de produção nas faixas. No entanto, isso não chega a amargar a experiência nem nada. Todas as músicas são boas, divertidas e os pontos altos são dignos de se tornarem hinos atemporais.

De tudo o que escutei em 2017, pra mim, foi o melhor LP em conceito, estilo e execução. Uma pena não ter vendido nada. Tomara que, ainda assim, mais coisas nesse nível venham dela futuramente. A AI agora entrou no meu radar e, sério, deveria entrar no de vocês.

Nota 9,4

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