domingo, 25 de junho de 2017

ALBUM REVIEW | Faky - Unwrapped (2017)


E ai que eu vinha reclamando bastante internamente sobre a falta de releases realmente interessantes esse ano vindos do Japão em comparação com a enxurrada de lançamentos bacana que vem ocorrendo na Coreia do Sul de janeiro até aqui. E como por mágica, uma porção de grupos e artistas nipônicos resolveram lançar troços extremamente interessantes recentemente. Será que se eu reclamar da minha falta de dinheiro, consequentemente, enriquecerei de uma semana para outra?

Enquanto permaneço pobre, confiram ai os meus pitacos sobre o Unwrapped, mais recente das meninas do Faky...


Eu adoro a inversão de papéis ocorrida na indústria fonográfica oriental nessa década ao público ocidental e no quão relevante a Coreia se tornou de maneira internacional, meio que frustrando os fãs mais antigos de J-Pop (oie) que adorariam ver seus faves tendo um maior reconhecimento por aqui, de modo que turnês viessem para cá, álbuns e rolasse toda a mania como a que está acontecendo com o K-Pop.

No entanto, parando para observar como mero espectador e ouvinte, uma porção de coisas justificam o Pop sul coreano ter hitado por aqui enquanto o japa acabou se fechando ainda mais num nicho específico. Muito vem do modo como cada uma das indústrias são levadas e seus propósitos fundamentais.

Enquanto coreanos tem como foco não só sustentar a cena cultural interna, há um grande esforço em fazer com que o estilo aconteça internacionalmente, com isso se refletindo em uma grande maioria dos minis e álbuns lançados por atos de lá sendo distribuídos via serviços de streaming, videoclipes irem inteiros para o YouTube, assim como programas de TV onde o pessoal se apresenta, com legendas em inglês e toda a parafernalha para tornar aquilo acessível ao maior número possível de pessoas fora da Coreia.

E o Japão caga para isso. A indústria musical (e cultural, num geral) é um tanto autossuficiente, permitindo que o que é feito por lá consiga se manter muito bem apenas com o consumo interno. Logo, são raros os álbuns disponíveis em Spotifies da vida, videoclipes inteiros no YouTube (já que os mesmos são vendidos juntos com os materiais físicos) e troços do tipo.

Outro fator que pesa na comparação é a maneira como os artistas são montados visual e conceitualmente. Sabem o que tem feito mais sucesso no Japão? Menininhas vestidas de bonecas cantando Pop idol infantiloide. E enquanto isso meio que já está contaminando a cena capopeira através do white aegyo (tá feliz, Apink?), no ocidente, o maior apelo ainda está em atos que tenham alguma semelhança com o que é produzido por aqui - não é de graça que BLACKPINK e K.A.R.D são pauta até entre os fãs de divas Pop.

São poucos os grupos Pop femininos conhecidos que buscam esse apelo no Japão. Menos ainda os que, de fato, fazem sucesso. O de maior relevância a vir na minha cabeça enquanto escrevo isso é o E-Girls. Porém, mesmo com um lado clubber rampeiro, duvido que elas colassem por lá sem o lado mais kawaii, fofinho, até meio infantil, que elas também trabalham.

O que melhor encapsula essa atmosfera "ocidental" e "kapopper", mesmo sem qualquer sombra de sucesso em vendas, é o Faky.

Em vez de duzentas e vinte e sete garotas no line up, o grupo é formado por apenas quatro garotas (eram cinco, mas duas foram chutadas e colocaram uma sobressalente). Em vez de um visual apelando ao infantil, com vestidinhos coloridos e um olhar confuso, temos mulheres vestidas como mulheres, andando, dançando e se comportando como mulheres. Em vez de um idol Pop com faixas exageradamente agudas, o que impera em seu repertório são sonoridades comuns à girlgroups britânicos, com um pé no que é tido como trend nos charts europeus.

E é bem isso o que rola em seu primeiro lançamento ~grande~ na avex, o mini-álbum "Unwrapped". E por "grande", entendam isso como um lançamento físico que nem é um LP e metade das faixas já havia sido lançada antes. Ao menos, a qualidade é boa.



Keep Out é um dos grandes destaques do EP, começando-o já para cima e estabelecendo o clima que irá imperar na maioria das faixas contidas nele. É algo com um pé do House e outro no EDM, com alternâncias de texturas sonoras, mas um andamento bastante acelerado, empolgante, energizante e que dá bastante vontade de ouvir várias e várias vezes de modo a pescar elementos não percebidos numa escutada anterior. Que farofa boa. Até o seu comprimento ajuda.

A influência House volta a aparecer mais algumas vezes na tracklist, mas de maneiras diferentes e interessantes, funcionando como um fio condutor pelas canções que dá coerência ao mini em vez de dar a impressão de que estamos escutando a mesma faixa repetidas vezes.

Em Are You OK?, por exemplo, temos uma pegada mais tropical, com um jogo de sintetizadores Dancehall que aparecem ao refrão totalmente coerentes com a onda que invadiu as rádios há dois anos e se mantém fortíssima até hoje.



Surrender já é algo mais experimental, mas sem deixar a essência Pop fugir de maneira nenhuma. Gosto da maneira marcial como a percussão eletrônica surge e das diversas mudanças que vão rolando ao longo de sua duração, com ela só explodindo mesmo no final.

Mas a minha favorita mesmo é Bad Things, um amálgama de Disco com Deep House de refrão enlouquecedor. É até meio triste que não tenham bolado um videoclipe com uma coreografia vogue numa festa ballroom, cheia de drags batendo leques ou coisa parecida, pois "Bad Things" merecia isso. Na mão de um Wednesday Campanella, por exemplo, teríamos uma obra prima e um dos ápices de 2017.



Porém, a avex preferiu trabalhar Someday We'll Know como lead single, colocando elas para andar fashionistas pela cidade. Falando assim, até parece que a faixa é ruim, mas não, pelo contrário. Adoro as batidas do refrão e todo o clima melancólico que foi colocado aqui. É uma ótima música e fica ainda melhor se pararmos pra pensar que ela encerra o EP em vez de alguma baladinha inespecífica.

A única que achei incoerente imaginando a tracklist como um todo é Candy, um Pop com cornetas um tiquinho datado que elas já tinham soltado como single digital em 2015 e relançado num outro EP ano passado com a já citada "Are You OK?" e outras faixas. Não é ruim, mas é estranha junto ao resto.



O gosto final é ótimo, mas também fica aquele ranço de observar algo ser trabalhado de maneira estranha, quase que pelas coxas. Se isso, na teoria, é para ser o primeiro lançamento realmente grande e trabalhado pela avex do Faky, porque inserirem faixas já antigas do grupo?

E já que resolveram requentar canções, porque não fizeram o truque máximo de gravadoras japas para inflar tracklists e não enfiaram de verdade o repertório delas aqui, com "Afterglow", "You" etc., transformando esse primeiro físico num LP, dando a desculpa de que esse é o encerramento de uma era ou qualquer porra dessas? É estranho.

No mais, as inéditas são realmente boas e fazem desse release algo bacana e relevante para a minha playlist. Visto isso, é claro que uma nota boa deve ser dada.

8,0

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