quinta-feira, 30 de março de 2017

ANIME REVIEW | Fuuka (2017)


Olá, pessoas que adorariam ter entrado em uma banda junto com seus amigos de colégio, mas não conseguem ter ritmo nem para bater palmas na hora do parabéns pra você. Como estão? Espero que bem.

Como muitos de vocês já devem saber, a temporada de inverno das animações japonesas já está chegando ao fim, com uma boa parcela das produções já sendo encerradas para que outras novas comecem. Dessa leva, acabei acompanhando poucos. Uns eu não consegui passar da metade, outros já me fizeram vomitar logo no primeiro episódio (pode entrar, "Idol Jihen"), mas os que dei prosseguimento acabaram valendo as horas gastas e, visto isso, pretendo falar sobre eles ao longo dos próximos dias.

Começando pelo que, acho eu, para o bem e para o mal, acabou sendo um dos mais comentados dessa season: Fuuka.

A propósito, rolarão vários spoilers a partir do próximo parágrafo. Se ainda não tiverem visto e quiserem ter surpresa sobre o que ocorrerá na trama, sugiro voltarem mais tarde. Se não tiverem qualquer problema com isso, podem dar prosseguimento...


Eu não costumo ter qualquer preconceito com animes. Assisto de tudo, mas com aquela plena consciência de que sei o que virá, pois as animações japas são assim, elas se repetem. Então, desde a primeira lida que dei na sinopse, já aceitei que "Fuuka" seria nada mais que uma série adolescente romântica, mostrando uma garotada se apaixonando, não sabendo lidar corretamente com isso, com algumas reviravoltas óbvias, tudo usando como pano de fundo a cena musical escolar e profissional nipônica. E o anime é isso ai mesmo.

Só que eu acabei me impressionando com o fato de eu realmente assistir e ainda ter interesse nele mesmo com, por algum motivo retardado que eu jamais conseguirei entender, uma grande parcela dentre os otakus resolver que era extremamente necessário contar o final da história para todos os que estavam começando o desenho.

Não era difícil que em qualquer publicação referente, seja no Facebook, no Twitter, em blogs de colegas, sites maiores, YouTube etc., surgisse um otaco com o anseio de espalhar o seu conhecimento ~privilegiado~ e contasse que a protagonista que dá nome ao desenho morreria em um dado momento. Mas não fiquem chateados, isso é uma OBRIGAÇÃO contida no Manual 2017 do Verdadeiro Otaku.

Mesmo com essa broxada, a real é que eu gostei da trama, me afeiçoei aos personagens e curti todo o entorno musical. De maneira despretensiosa, eu sabia que me divertiria assistindo aquilo. Que bom que continuei, pois pude presenciar uma das maiores trolladas roteirísticas desses últimos anos. Mas já falo disso mais pra frente...


"Fuuka" conta a história de Yuu, um moleque viciado em seu celular que passa O DIA TODO no Twitter. Embora não fale muito em OFF, cada passo seu é comentado na rede social, onde ele interage com uma porção de seguidores e tem uma rede de amigos bem intensa. No entanto, não é por o rapaz ter uma série de semelhanças com este que vos escreve que acabei me prendendo ao anime. A história ainda se "desenvolve" a partir disso.

Certo dia, distraído com o smatphone, Yuu esbarra em Fuuka no meio da rua. Quando a menina cai de pernas abertas com a câmera focando por incontáveis segundos no que há de baixo de sua saia, ela acusa o recém desafeto de estar espiando sua calcinha e ser um pervertido que está tirando fotos íntimas dela naquele momento - coisa que se repete no dia seguinte, quando ele vai fazer sua matricula no mesmo colégio onde a garota de cabelos azuis estuda.

Só que o clima torna-se amistoso rapidamente quando o protagonista tenta defendê-la de outro "abusador" na hora do recreio. Ai, eles viram amiguinhos, meio que começam um amor e, BOOOOOM, o roteiro de anime romântico está criado. E eles decidem montar uma banda.

Aah, esqueci de dizer que Fuuka é uma hipster conceitual que não usa celulares, não tem qualquer rede social e escuta músicas com um vintage DISCMAN, pois deve ser cool demais carregar aquele troço pra lá e pra cá. Ooh, e ela é super fã de uma idol que é, nada mais, nada menos, que amiga de infância do Yuu e, vejam que delícia, é SECRETAMENTE APAIXONADA pelo rapaz. Segura esse triângulo amoroso que nem Walcyr Carrasco bolaria melhor.


Mesmo seguindo tal cartilha de obviedade, o anime funciona por uma série de motivos. O que mais me agradou neles é tocarem em certas feridas relacionadas à cena idol existente por lá. Todo o ideal de que celebridades precisam ser revestidas num verniz de perfeição e atender a todas as expectativas de seus fãs e sobre o quanto isso pode ser desgastante não só para o artista, mas para todos os que estão ao seu redor, é contado de maneira inteligente e sensível através dos segmentos da Koyuki Hinashi, outra ponta do triângulo amoroso dos protagonistas.

A reação popular extremamente agressiva às fotos inocentes dela com o Yuu são perfeitamente coerentes com o tipo de shit storm vinda de fãs mais xiitas no mundo real. Ameaçarem os envolvidos a penas de morte, boicotes em shows e programas de TV, o uso de violência física e psicológica, sim, isso é normal nesse nicho onde os "admiradores" colocam as cantoras/es como a personificação de seus desejos. Quando percebem que são seres humanos normais, a magia se quebra.

A título de comparação, podemos lembrar da menina do AKB48 que foi obrigada a raspar a cabeça por transar com seu namorado. A equipe por trás da Tama-chan não tomou medidas tão drásticas, mas eu diria que foi por pouco.

Nesse saco de bons acertos, temos também o fato de praticamente todos os personagens serem extremamente carismáticos, terem um background consistente e uma série de momentos memoráveis ao longo de toda a temporada. Talvez algumas relações pudessem ser melhor aproveitadas, e é ai onde os maiores defeitos começam a aparecer.


Quer dizer, por que colocar na vida em OFF do Yuu um de seus contatos de Twitter com quem ele mais interagia se, depois disso, os dois quase não se falariam mais? A amizade dele com a Sara poderia ser bem mais aprofundada, mas a impressão final entre os dois é que só inseriram ela na trama para servir com mais uma no "harém" que estava se montando. Foi meio objetificante e estupidamente desnecessário.

Outra coisa que também carrega essa soma - e que me incomodou demais - foi o exagero de ecchi e a maneira completamente aleatória com que usaram esse artifício. Até faz sentido que as irmãs do Yuu andem mais a vontade dentro de casa, pois aquele era um local onde apenas mulheres moravam não tem tanto tempo, mas qual o contexto de inserirem a Fuuka tomando banho quase todo santo episódio? Apenas para satisfazer a ausência de contato sexual real dos otakus mais punheteiros? Estamos em 2017, esse tipo de coisa não é mais tão sustentável.

Felizmente, tais erros acabam não manchando tanto o pacote final e a experiência permanece positiva.

Eu to viva, mother fockers!!!!
E claro, tem ainda o delicioso dedo do meio que a produção do anime deu não só para essa parcela do público que adora soltar o final para os que ainda não tiveram contato com a trama por outros meios, mas também para aqueles que acreditam que essas mídias devem todas ser milimetricamente iguais, com animes sempre seguindo o que é feito nos mangás/novels  e vice-versa em vez de funcionarem de maneira complementar, explorando diferentes possibilidades. E foi isso que eles fizeram ao não matar a Fuuka.

Eu não li o mangá original por uma série de motivos (e provavelmente nem lerei), mas acho que se até o autor da obra achou bacana terem dado um final alternativo para a criação dele na TV, não temos tanto o que contestar, né?

E eu gostei do final mais clichê, pois "Fuuka" é uma produção clichê. Pra ser honesto, se ela morresse atropelada naquele momento, boa parte da atmosfera mais açucarada e "good vibe" construída até ali meio que perderia o sentido.

No mais, é isso ai. "Fuuka" é um anime simpático e cumpre bem o que se propõe. Não é nada que muda vidas, mas não é como se alguém assistisse shoujos com esse intuito, né?


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