sábado, 18 de fevereiro de 2017

ALBUM REVIEW | Wednesday Campanella - SUPERMAN (2017)


Creio que, assim como boa parte do público internacional, conheci o Wednesday Campanella em 2015, ainda como Suiyoubi no Campanella. À época, o trio formado pela vocalista KOM_I, pelo produtor, compositor e multi-instrumentista Hidefumi Kenmochi e pelo diretor Dir.F divulgava de maneira independente as canções e videoclipes que viriam a completar o projeto audiovisual "Zipang".

Aquele já era o quinto álbum de inéditas do grupo e, de certa forma, tal esforço em se diferenciar através da divulgação de tal material rendeu bons resultados, chamando atenção da mídia internacional para o trabalho antes apenas conhecido na cena eletrônica underground japonesa. E dai, foi só para cima.

Vieram contratos e mais contratos com marcas para a produção de CFs, turnês, participação no SXSW com KOM_I piranhando dentro de uma bolha gigante, a adaptação internacional do nome do grupo, a assinatura com a Warner, a disponibilização do catálogo nos serviços de streaming e, agora, um lugar no mainstream asiático.

E então, aqui estamos com o primeiro álbum dessa nova fase. Seria o SUPERMAN tão legal quanto o que mais os três lançaram fora dos holofotes ou a acessibilidade ao grande público teria diminuído a agressividade e inventividade deles em prol de um apelo mais Pop? Confiram meus pitacos logo abaixo...


Antes de tudo, vale explicar que o Wednesday Campanella tem uma assinatura sonora bem forte, cujo instrumental mistura influências de House, Deep House, Garage House, Drum'n'Bass, UK Bass e alguns outros elementos da música eletrônica, deixando tudo com um ar ainda mais creepy ao colocar a vocalista de voz esganiçada cantando numa velocidade desconfortavelmente alta. Isso tudo com letras ~homenageando~ figuras históricas/místicas japonesas e internacionais, ampliando tudo em videoclipes ridiculamente fumados e hipnotizantes.

Então, não se assustem com as referências, pois todas são propositais.



O LP já começa com Aladdin, que é APENAS a minha sétima canção japonesa favorita do ano passado. Não tem como não ter vontade de sair dançando pela rua ao escutar isso aqui. Dos teclados pesadíssimos ao início, remetendo à produções do Michael Jackson nos anos 80, até a maneira como tudo ganha um ar cintilante conforme os segundos passam, tudo contribui para que uma grande injeção energética de alegria penetre no cérebro do ouvinte e consuma todo o corpo, impedindo-o de ficar parado.

E essa vibe se reflete no clipe, com a KOM_I convertendo uma pista de boliche em uma de dança.



Ao mesmo tempo que começar o álbum com "Aladdin" é algo maravilhoso, pois já pesca todos com o que de melhor o trio pode proporcionar, confesso que tive receio que mais nada pudesse superá-la e que, de certa forma, o LP decaísse drasticamente apenas pela comparação.

Que bom que me enganei, já que Sakamoto Ryoma mantém o alto nível, sendo um ótimo exemplo de como a soma de House com Drum'n'Bass pode gerar bons resultados. E mesmo com uma base eletrônica quase esquizofrênica rolando atrás, toda ela é cantada como se fosse uma ballad, provocando uma confusão mental bem boa de acompanhar.

A escolha de Ikkyu-san como lead single é perfeitamente compreensível, já que a mesma é o momento mais sobriamente Pop do álbum. A aura Disco é facilmente associável ao som que o Daft Punk mostrou no "Random Access Memories", ganhando ainda mais confete pela melodia agradável, pelos ícones tradicionais japoneses na backtrack e pelo refrão catchy. É outro grande destaque positivo.



FAROFAAAAAAAAA!!!! Onyankopon é um dos momentos mais pesados da tracklist, sendo iniciada com uma intro recheada de drag-appeal e desdobrando-se em diversas camadas e andamentos, alguns meios jazzísticos, uns bem classicões, outros loucamente distorcidos para a pixxxta. Essa é daquela músicas que o refrão rebolativo chega de surpresa e todos ficamos WAAAAAAT.

Gosto bastante da "abertura afro" em Genghis Khan, que acaba estourando numa proposta de Tropical House um tanto mais classuda que o habitual visto na cena mundial. Já Charlie Chaplin é um bocado mais experimental, com ainda mais distorções e mudanças de andamento que "Onyankopon". Sério, tem hora que ela é minimalista, outra que tem um sem número de sintetizadores explodindo na nossa cara, outra que ela está mais contida.

Audrey deve ser uma das minhas favoritas de todo o álbum e meio que sinto uma pena de não terem bolado um vídeo bem insinuante para ela. Amo a mistura de House com Disco, a estrutura farofeira dela, os sintetizadores futuristas pós-refrão, a linha de baixo gravíssima e todo o apelo fun por trás da produção. Um dos pontos altos desse início de 2017.



Chegando na trinca final, temos o single Kamehameha The Great, que até soa meio experimental numa primeira ouvida, mas acaba sendo intuitivamente Pop em sua estrutura. O refrão é divertido e as explosões sônicas são empolgantes. Mais um ponto alto e ele aparece quase ao final. Quando que suas coreanas favoritas conseguiriam isso?

Encerrando, Zeami faz referência ao famoso dramaturgo japonês de mesmo nome. Interessantemente, essa inspiração se mostra também na maneira dramaticamente teatral como a faixa é montada, com instrumentos de corda e tradicionais do folclore nipônico interagindo com o eletrônico e resultando numa performance que, pouco a pouco, vai nos levando até um grand finale épico. Uma pena não ser essa a encerrar o CD, mas não é como se a escolhida fosse ruim, muito pelo contrário.

Amanouzume se refere à deusa xintoista da alegria, do amanhecer e da folia. E como ilustrar isso sonoramente? Colocando um número House cintilante bem gay para voguing por cima, é claro! Particularmente, fosse eu a escolher a maneira como a tracklist seria montada, colocaria tal canção logo após "Audrey", mas isso é reclamar de barriga cheia, não?

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Eu depois disso tudo...
No mais, o gosto que fica na boca após escutar o "SUPERMAN" do início ao fim é o de satisfação. É um álbum estranho, divertido e chamativo do inicio ao fim. Não há momentos equivocados ou qualquer filler. A produção é espetacular, a ideia por trás de tudo é muito bem executada e todo ele meio que representa a "estranheza Pop" esperada de releases japoneses.

É claro, não é melhor que o "Zipang" (e duvido que eles consigam superar aquilo), mas creio que não seja por demérito desse mais recente, sim por mérito do que foi lançado em 2015. Apenas por isso, não dou a nota máxima.

9,2

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