domingo, 29 de janeiro de 2017

Manual 2017 do verdadeiro otaku


Fazer parte de um nicho, seja ele qual for, sempre tem prós e contras. Você tem acesso a produtos culturais que acabam não tendo a oportunidade de pintar no mainstream, conhece pessoas que compartilham desse gosto e se diverte de uma maneira que os que estão fora não conseguem entender.

Entretanto, todo esse sentimento de pertencimento, por vezes, acaba sendo exagerado. E é ai que está o maior problema.

Faço parte do ~nicho otaku~ desde bem novo e pude ao longo dos anos observar certos comportamentos um tanto desgastantes desse meio, que acabam afastando uma galera que poderia se interessar pelo assunto e dificultam muito sua popularização aqui no Brasil.

Então, baseado em tais fatos que se repetem bastante em fóruns, caixas de comentários de sites grandes e grupos de redes sociais, decidi formular um "manual" com algumas dessas supostas regras comportamentais existentes no meio otaku.

Com quantas vocês se identificam?

Regra nº 1: Ler mangás e assistir animes na mesma proporção de quando estava no ensino fundamental;

Dormir pra que mesmo?
Ooh, essa é a mais óbvia mesmo, não? Até porque, otaku que é otaku precisa dedicar todo o seu tempo livre em prol da causa e consumir com afinco não só todos os animes, mangás, novels que estejam em evidência, como ir atrás de todos os demais que fizeram sucesso em anos passados e tantos outros desconhecidos, pois otakus que honram a camisa necessitam ter uma bagagem obrigatória além do usual.

É claro que ter demais coisas para fazer, como estudar, trabalhar, ter uma vida social e até consumir conteúdos diferentes, como séries, novelas, livros e músicas de outros países não devem interferir aqui. A causa otaku vem antes.

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Regra nº 2: Obrigatoriamente ter lido o mangá ou light novel do anime que estiver assistindo;

Já contaram o final de "Fuuka" para alguém hoje?
Acaba sendo uma continuação da primeira regra, se pararmos para pensar. Otaku que é otaku não deve se deixar levar pelo efeito surpresa de apenas assistir um anime e ir acompanhando o desenrolar daquela história através dele. Otakus DE VERDADE ou já consumiram todo o conteúdo disponível daquela série online antes de assisti-la, ou correm para se informar do final assim que a começam. 

Também é dever do otaku moderno ajudar os demais colegas que ainda não souberem os finais originais dos animes que estiverem passando, informando-os o destino de cada um dos personagens através de spoilers amigáveis em todas as oportunidades e locais possíveis: caixa de comentários em sites especializados, grupos de Facebook, Twitter etc.

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Regra nº 3: Julgar a qualidade de um anime pela sinopse e/ou pelo primeiro episódio;

E assistir o resto pra que?
Essa aqui é super justificável. Afinal, como não sacar de cara a qualidade de um anime, mesmo sem assisti-lo antes, apenas por sua sinopse? Tudo fica tão óbvio a partir de textos opinativos de cinco linhas feitos por blogs especializados no assunto. Como contestar?

E para os que ousam contestar, há ainda uma segunda regra: julgar toda a série que estar por vir tomando como base apenas o primeiro episódio. Pois não existe a possibilidade de num capítulo de 20 minutos o autor não colocar tudo o que está por vir pela frente.

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Regra nº 4: O que é ruim é RUIM e o que é bom é BOM;

Não existe meio-termo?
O otaku raiz nasce com a concepção de que não existe meio termo dentro dessa indústria. Logo, a existência de mangás, animes e demais traquitanas medianas, razoáveis ou passáveis é claramente inexistente, pois, sem qualquer sombra de dúvidas, na verdade, são todas péssimas, horríveis e ofensivas. 

E como um reflexo atrás de um espelho polido, é também comprovada a inexistência de obras apenas divertidas ou interessantes de consumir para passar o tempo, visto todas elas serem, de fato, quebradoras de paradigma, diferenciadas, magnânimas, criações divinas de excelência incomparável. 

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Regra nº5: Reclamar das publicações japonesas em editoras nacionais;

Porra, JBC...
Afinal, quem é otaku a vera (estou ficando sem sinônimos que prestam, sorry) tem fincado em sua cabeça que a arte da Terra do Sol Nascente deve ser consumida aqui de maneira alternativa, de fãs para fãs, através de scans e serviços de streaming "não-oficiais", não como uma forma de comércio nacional.

Logo, é válido - leiam como "obrigatório" - reclamar de todas as formas possíveis, indireta ou diretamente, com as editoras que publicam materiais do tipo por aqui, mesmo que você não consuma o que é vendido por elas. E ai, entram as mais possíveis motivações: transparência dos papéis usados, preços, capas utilizadas, traduções diferentes do já feito antes na internet e a falta de seus títulos favoritos.

A regra de comportamento se estende também à produtoras que desejarem dublar e exibir animes oficialmente por aqui. 

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Regra não escrita, mas aceita como um consenso: Não ser negro, mulher, homossexual ou pertencer à qualquer minoria.

"Chegou o SJW"
A grande realidade é que otakus originais devem ser homens, cis, brancos e heterossexuais. Qualquer um que não se enquadre nessas especificidades não faz parte "de verdade" do grupo. Tais pessoas até podem consumir animes, mangás, se autointitularem otakus e otomes, mas devem permanecer calados em debates e jamais exigir qualquer participação de personagens que se pareçam com eles em favor de "representatividade", ou reclamar do excesso de ecchi e normalização de atitudes machistas como abuso sexual ou estupro em certas obras em prol de "feminismo", porque para começar, elas não deveriam nem estar ali.

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Não sei se alguém não entendeu a ironia, mas é óbvio que isso aqui é um retrato exagerado dos comportamentos presentes nessa fatia cultural. Não quer dizer que todos sejam assim, mas que há uma certa parcela significativa agindo como uma maçã podre na cesta de frutas. 

Particularmente, acho que me enquadro em partes na regra nº 5, pois de fato costumo reclamar da qualidade das publicações aqui no Brasil. Porém, digo "em partes", pois eu COMPRO os gibis vendidos por aqui e como CONSUMIDOR do mercado nacional, me vejo no direito de exigir qualidade naquilo que gasto meu dinheiro.

Já sobre as regras do manual que mais me incomodam, a última é a que me ataca em maior escala. Já cansei de ver comentários sobre personagens negros em animes e mangás serem "feios", "errados" e "não-ideais". Fui cosplayer durante toda minha adolescência e em parte da pré-adolescência e era ridiculamente comum que comentassem que o meu tom de pele não era o correto para os personagens que eu interpretava.

Já sou velho tenho uma casca para esse tipo de bosta, mas imaginem um garoto negro novinho descobrindo o mundo otaku se deparando com tais comentários? Imaginem então como é para uma menina não poder reclamar da erotização excessiva das personagens sem que vários machões surjam para confrontá-la? Imaginem então como é para um gay ler comentários maldosos sobre "Yuri On Ice"?

Quanto as demais regras, também me afetam de certa forma, mas confesso dar risada de quem acredita em tais coisas. Deve ser questão de maturidade, sei lá.

Enfim, fica aquela desgostosa sensação de que o mundo otaku aqui no Brasil poderia ter um alcance bem maior, mas que os próprios consumidores atuais sabotam a causa. Uma pena.

3 comentários:

  1.  essa parada de erotização, cor de pele, raça, minoria ou seja mais la o que fez eu fica tipo, wtf c quer historia com personagem negro , heroina que não seja sexualizada ou seja la o que for, crie público pra isso, mangá e animes são feitos para um público, se vc quer que seu público seja atingindo, ajude a crescer, querer obrigar as pessoas a fazer o que vc quer só pq vc não se acha representado é frescura, ah como eu queria um mangá só com negros, ah mas não tem, ah, tudo culpa desse brancos, cis sei la o que e não da nossa falta de público para consumir àquilo, ah claro....

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    Respostas
    1. Bom, obrigado por vir aqui e comprovar que a regra final do manual realmente está presente no meio otaku. =)

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    2. Relaxa cara, um dia c e todas minorias menosprezadas e injustiçadas vão ter sistema de cota, ai sempre vai ter um amarelo, um negro, uma gordona e pq não uma fuinha? Mas nada de mulheres sexualizadas cara, afinal, a gordona que é obrigada a ver aquele conteúdo, vai se sentir triste e ofendida, então nada de sexualização...é, realmente são vários os otakinhos que confundem realidade com fantasia

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