quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ALBUM REVIEW | REOL - Sigma (2016)


Eu costumo receber algumas olhadas de canto de olho das pessoas com quem convivo quando digo que, quando o assunto é música Pop, não tem nenhum cenário no mundo mais interessante de se acompanhar que o Japão. Sim, meus caros, considero a ilha do sol nascente um celeiro de talentos musicais especialmente particular, responsável por começar com sonoridades mais experimentais e brincar com isso de forma que tudo soe estranhamente radiofônico, sendo melhor que a Coréia, melhor que UK e ridiculamente superior e mais ousado que a cena de USA.

É claro que a onda nipônica ao redor do globo já não é mais tão forte, muito pela maneira como a galera de lá leva o seu mercado, focando no público interno em vez da exportação, mas reparem que, pelo menos uma vez ao ano algum ato japonês acaba se destacando dentro do nicho internacional da asian music e se tornando referência para o que é feito na terra do Goku - mesmo que isso não seja um reflexo em vendas. Em 2014 foram as meninas do FEMM fingindo ser manequins e revivendo o Pop 2000's, ano passado foi o Wednesday Campanella alcançando um sucesso tardio em seu terceiro álbum.

O ato a ocupar esse posto de "revelação" em 2016 até agora foi, sem sombra de dúvidas, o REOL. O trio é uma sub-unidade da gravadora Toy's Factory, formado pelo produtor/DJ GigaP, o Okiku, que é diretor dos videoclipes, e a vocalista... Reol. Exato, o nome do grupo é o nome da gatinha, mas todo em caixa alta. Além disso, a Reol é também uma Utaite bem famosa, que é o nome que dão para artistas que fazem covers robotizados dentro de um nicho online que descobri ser bem forte lá no Japão. Resumindo toscamente, é como se fossem "versões físicas" dos vocaloids.

Com tudo isso em vista, o trio lançou recentemente seu primeiro álbum de inéditas, Sigma. Tenho escutado-o há algum tempo e, bom, chegou a hora de dar os meus pitacos sobre o que há de melhor e pior nele...


Não comentei as faixas na ordem do álbum. Se vocês se perderem por a lista do Spotify não estar no nosso alfabeto, sugiro que olhem os nomes e a ordem exata aqui nesse post

A primeira impressão que tive quando escutei VIP KID foi a mais assustadora possível. Não sei se é proposital, mas seus primeiro momentos parecem ter um volume diminuído. Isso fez com que eu aumentasse a altura do som no meu celular e quase me cagar todo quando, após toda a introdução robótica, ela explode num "OOOOOOOOOOHHHHHHHHH" lá por 15 segundos, entregando uma farofa EDM super alta, requebrante e intensa. Quase como uma versão ~menos experimental~ de "Story", do Perfume. Um bom jeito de começar um álbum...


Give Me A Break Stop Now foi, provavelmente, o primeiro contato que todos nós tivemos com o trio. Eu, sinceramente, nem a tinha achado nada demais há uns meses, mas a faixa foi se entranhando pouco a pouco na minha cabeça, revelando-se um dos troços mais grudentos vindos do Japão nesse ano. Mesmo sendo a fórmula básica de uma farofa eletrônica, não há nada nela que esteja fora do lugar. Os versos são fortes, o pré-refrão é intenso, o refrão repetindo o título várias vezes enquanto tocam os sintetizadores-para-bater-cabelo é certeiro. E claro, o apoio visual com o videoclipe creepy pra caralho, emulando uma versão masoquista/trevosa da Kyary Pamyu Pamyu, ajudou muito nisso.

A delícia continua lá em cima quando elementos folclóricos surgem na backtrack de YoiYoi Kokon. Essa mistura do clássico com o contemporâneo sempre me conquista com certa facilidade, mas aqui está tudo mais especial, já que o tempo da música está altíssimo e os versos frenéticos dão todo um tom desesperado muito impactante ao pacote final. A vontade que dá é de colocar um quimono e sair pulando por ai bêbado de saquê - com pausas para executar o movimento da sanfoninha quando chega o break de dubstep, é claro.



O tom muda um pouco e mergulha no mundo 8-bits em Konoyo Loading..., que soa como se pegassem a trilha sonora do Mario de nintendinho remixassem para uma rave. Curto bastante essa pegada, ainda mais por ela dar mais destaque ao "lado Hip Hop" da Reol, que funciona maravilhosamente bem.

Eu gostaria mais de RE: se o instrumental focasse menos no trap e, assim como a anterior, desse mais destaque aos efeitos que lembram ícones sônicos de videogame. Também gostaria mais se após o refrão ela não tivesse um break de Dancehall, pois já estou enjoado desse estilo ser usado em 90% dos releases orientais recentes. Mas isso ai sou eu sendo chato, pois mesmo com todos esses pequenos defeitos, essa ainda é uma faixa divertida de ouvir.

Parando pra pensar, acho que "RE:" acaba sendo inferior até mais pela comparação com o que vem a seguir, já que Lunatic é outro dos destaques absolutos do álbum (e de 2016 musicalmente como um todo). A aura completamente viajada, remetendo a longa-metragens e animes clássicos de Sci-Fi representados sonoramente através da construção instrumental New Wave é não menos que espetacular. E é lógico que eu adorei a homenagem ao nome do blog... :v

Porém, em minha cabeça, tenho enfrentado um dilema para escolher a minha favorita entre "GMBSN", "YoiYoi Kokon", "Lunatic" e ChiruChiru. Isso porque aquilo que eu falei deles criarem algo que parece o remix de uma trilha 8-bits é feito aqui de maneira ainda melhor. Caramba, essa música é muito o tipo de coisa que toca no meio de um show e o público se esgoela insanamente para seguir todas as estrofes do início ao fim.



Uma pena o clima do álbum todo não se manter nessa pegada, estando nisso o maior problema do "Sigma": juntar canções de apelo mais experimentais/J-Pop creepy com outras muito semelhantes ao mainstream estadunidense. Dessa leva, as mais agradáveis são Kamisama ni Natte Hi e DetaramE KiddinG. A primeira, muito por ser o tipo de coisa que realmente funciona dentro do Pop ocidental e por dar uma curta viajada no eletrônico la nos segundos finais, viajada essa que rola durante toda a segunda, sendo a melhor da leva final do álbum.

Entretanto, o mesmo não pode ser dito do restante. Summer Horror Party é só mais uma dessas bobagens Tropical House chatas pra caramba que até soavam interessantes na primeira metade de 2015, mas, agora, soam como repetições eternas dos mesmos acordes.

404 not found até começa parecendo ser algo mais indie, alternê, hipster ou qualquer dessas denominações aleatórias usadas para canções melancólicas eletrônicas que servem tanto para chorar depressivamente quanto para dançar a noite inteira. O problema é que os versos e o refrão dela são um tédio insuportável e o break de dubstep entra de maneira dissonante demais, algo elevado à quinta potência em VIORA, que encerra o álbum com uma qualidade bem inferior ao que é nos apresentado no início. Mil vezes se tivessem jogado a intro -FINAL SIGMA- lá pro final, encerrando-o com "Give Me a Break Stop Now".


O gosto final que fica é de que o "Sigma" foi um bom debut profissional para o REOL. Essa acaba sendo a oportunidade ideal tanto para a Reol (cantora) quanto para seus produtores de se mostrarem como "verdadeiros artistas" para o que é tido como o padrão mercadológico, não ficando apenas no que erroneamente é tido como um hobby pelo público geral.

É lógico que eu cortaria umas faixas desnecessárias, mas isso é pura subjetividade.

Nota: 7

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