domingo, 9 de outubro de 2016

ALBUM REVIEW | Utada Hikaru - Fantôme (2016)


Eu assumidamente me forcei a demorar para postar essa resenha, isso por alguns motivos. O primeiro deles é por eu acreditar que, comigo, especificamente com álbuns, não funciona escrever sobre imediatamente. A música comigo é algo que vai acontecendo conforme o tempo. Tem vezes que gosto muito de algo logo de cara, mas acabo enjoando menos de uma semana depois. Já outras, acabo tendo um certo preconceito e má vontade na primeira ouvida, mas vou adquirindo afeto conforme escuto-as mais e mais.

O segundo motivo, que conversa bastante com o primeiro, é o fato de eu ser fã do trabalho da Utada Hikaru há muitos anos. Não lembro se já disse aqui, mas consumo o mercado musical japonês desde... Sei lá, quando foi a primeira vez que acessei a internet? Canções como Traveling e Sakura Drops estão entre as minhas favoritas da vida. Por isso, tive medo de cair em alguma armadilha mental e avaliar positivamente o CD apenas pelo biased, ou pior, acabar sendo crítico demais para driblar isso na minha cabeça e me arrepender futuramente.

Bom, um tempo seguro já passou e, sem mais delongas, confiram ai os meus dois centavos sobre o tão esperado e aclamado Fantôme...


Eu tenho falado bem menos de J-Pop/J-Rock aqui no blog do que eu gostaria, então pode ser que boa parte da galera que vem aqui ler meus pitacos sobre os grupos de K-Pop não tenha ideia de quem diabos é essa mulher. Se quiserem mais informações, vocês podem conferir essa matéria que eu escrevi no comecinho de julho.

Agora que já tenho alguns anos a mais de vida e bastante experiência dentro de diferentes nichos, é interessante notar o quanto a Utada é querida e respeitada por diversos públicos. Os otakus a amam por suas participações em OSTs de animes, os gamers menos preconceituosos por sua participação na trilha de "Kingdom Hearts", a galera hipster/metaleira que procurava por releases de artistas japas em blogs piratões e comunidades do Orkut nos anos 2000 pela qualidade de seus álbuns. Enfim, São diversas panelas notando-a.

Acho que os locais mais inusitados que escutei algumas de suas canções foram numa rádio razoavelmente grande e influente aqui do RJ (nem sei se era de forma legal), mesmo que sua discografia nem tenha sido lançada aqui, e no celular de uma amiga minha do Ensino Médio que não tinha qualquer resquício desses grupos citados no parágrafo anterior. Sim, o alcance foi esse tanto.

Entretanto, ela esteve fora da cena nipônica durante seis anos, vendo quase todo esse mercado mudar e as concepções de "ídolos" se tornarem variadas. Somem isso a uma vida pessoal particularmente atribulada, com um recém-casamento, uma filha e o suicídio de sua mãe. O que poderia ser um fim de carreira justificável, na verdade, se transformou num surto de criatividade louvável, convertendo os diversos sentimentos que passaram em sua cabeça num álbum quase que inteiramente composto e produzido por ela.

O álbum nem tá no Spotify, gente...
O "Fantôme" tem início com a maravilhosamente intrigante Michi. Todos que a escutaram pela primeira vez certamente foram enganados pela aura cintilante formada na mistura de sintetizadores eletrônicos e piano, fortalecida pelo andamento Dancehall a qual foi montada. Porém, a grande surpresa está em sua letra: uma confissão de sentimentos. Ela fala sobre a dor da perda de sua mãe, da solidão inevitável causada pelo luto e de como é estar passando por isso fora dos holofotes. No fim das contas, esse é um mundo solitário, certo? A total discrepância entre instrumental e letra acaba criando uma confusão de sentimentos no ouvinte, algo ousado, sensacional, artístico, lindo.

Ore No Kanojo modifica um pouco o clima, trazendo acordes de baixo reverberados como pano de fundo para a bela voz da Utada cantando no ponto de vista de um homem. O minimalismo some em seguida, quando surge um piano mais jazzístico e diversos outros elementos, fazendo com que a música exploda no final, quando o japonês é substituído por francês, deixando toda a proposta final num nível de dramaticidade maravilhoso.



A primeira balada do álbum chega simpática em Hanataba Wo Kimini. O clima 2000's é o que prevalece aqui, de forma bem orgânica, com a banda apoiando melodicamente os belos versos fúnebres sobre a última despedida. O uso apenas de violinos no finalzinho até que ela volte a estourar é tocante.

E o tema morte volta a aparecer algumas vezes em outras baladas. É arrepiante a maneira como ela transpõe isso não só para os versos escritos, mas para a composição instrumental. Por exemplo, Ningyo tem na harpa o seu maior destaque sônico, Manatsu no Tooriame se deixa envolver pelo toque do piano, mas transforma-se em um quase hino pelos violinos e cielos que brotam conforme os minutos passam e Boukyaku tem a capacidade de atingir áreas etéreas pela maneira como o synth é tocado, os versos desesperados do rapper KOHH são entoados e pela zona vocal que a Hikaru escolhe para cantar. Magnífico.


Nijikan Dake No Vacance é a minha música favorita da tracklist. E isso sou eu me segurando para não dizer que é a minha j-music favorita desse ano, pois a exploração cósmica do Perfume e a corrida maluca do AOA com o T.M. Revolution seguem fortíssimas no páreo. Convidar a Sheena Ringo para um dueto lésbico e não permitir que os elementos habituais das produções dela, como Jazz, Bossa Nova ou Rock imperem, no começo, me soou como um desperdício e tanto. Só que a surpresa está, vejam só, no resultado final ser justamente algo que não tem absolutamente nada a ver com isso.

"Uma Folga de Duas Horas" é liricamente e melodicamente agradável, sendo sumariamente Pop, mas com uma montagem que permite-a dar a oportunidade de apreciar cada mínimo ícone sonoro dentro dela. O final orquestrado deve ser o mais bem trabalhado do LP. A voz da Sheena, uma das mais facilmente identificáveis da asian music, torna tudo único, individual. E claro que tudo ser sobre elas serem amantes que não podem se permitir curtir mais tempo que o previamente combinado, pois tem vidas para cuidar dentro do armário, torna tudo mais delicioso. Eu realmente amei isso aqui, sério.

E se a brasilidade que a Sheena tanto adora e reproduz não apareceu em sua participação, em Tomodachi ela está bem presente. O modo como o violão é levado, junto com percussões e sopros, além do backing vocal do Nariaki Obukuro, deixa tudinho bem "Novos Baianos". Já a bateria eletrônica fundida ao baixo, logo entregue ao clima orquestral do álbum, em Kouya No Ookami dá todo um feeling cinematográfico para a mesma.

Mais um destaque positivo entre tantos já citados é Jinsei Saikou No Hi, também romântica e bem "brincalhona" em seu instrumental, com sintetizadores eletrônicos retrôs interagindo com acordes de guitarra, sumindo e reparecendo de surpresa. Deve ser a mais animada do álbum, que termina com Sakura Nagashi, tema arrepiante do anime "Evangelion", originalmente lançada em 2012.



O gosto final que fica é de que, porra, a espera realmente valeu a pena. O "Fantôme" é um álbum lindo, recheado de faixas delicadamente bem construídas, absurdamente mais orgânico que 99% de tudinho que saiu no Pop mundialmente durante o ano, que me levou para lugares fantásticos e emocionou como poucos conseguem.

Entretanto, não tenho como não fazer algumas ressalvas. Embora eu tenha gostado de todas as faixas e adore escutá-lo no início ao fim, preciso confessar que, quando colocadas no aleatório com outras canções numa playlist do meu celular durante o dia, algumas delas elas (as baladas sem a Sheena Ringo, no caso) acabam perdendo um pouquinho do brilho original. E isso ocorre por um outro fato "negativo" do pacote todo, que a a repetição de uma mesma fórmula na tracklist inteira. Todas iniciam de forma minimalista e ganham elementos aos poucos, explodindo numa grande riqueza orquestral. Rola legal quando escutado de maneira fechada, mas destoa quando separam-se. Só isso mesmo (e meu TOC) me impede de dar a nota máxima, mas foi quase, viu...

Nota 9,8.

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