quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Vamos conversar a sério sobre 'Lifted', o tal debut americano da CL?


Quando monto um post aqui no blog, tento sempre passear num clima mais despojado, sem muito peso, fazendo o possível para que minhas piadas sem graça de tio velho tornem mais agradáveis os dias cansativos de vocês, oh, maravilhosos fãs. E o faço dessa maneira por uma série de motivos.

O primeiro é por eu não querer me levar a sério, tornando esse espaço uma válvula de escape para os meus estresses da vida jornalistica e universitária, querendo que seja assim também pra quem quiser ler e, por alguns momentos, deixar de lado as seriedades do dia a dia. O segundo é eu não ter muita paciência para a postura pedante de alguns outros blogs fundo de quintal, que acreditam ditar o que é certo e errado, prendendo-se numa bolha de arrogância sustentada por meia dúzia de comentários em postagens - pensem em outros blogs de cultura Pop que vocês acompanham, agora reflitam se eles se enquadram ou não nisso.

Entretanto, dessa vez, irei me permitir dar uma aprofundada problematizadora maior que as pautas frequentes e, que Ho-oh me proteja da ira dos fãs, comentar o tal debut solo americano da CL trazendo algumas questões meio desgastantes para a roda...


Antes de tudo, eu realmente não dou a mínima pro fato da YG ter lançado isso aqui justamente no aniversário de 10 anos do BIGBANG em vez de algum single especial de aniversário. E a resposta para isso é a mais óbvia de todas: eu não gosto do BIGBANG. Não tem nada na discografia deles que me chame atenção e, pra piorar, tenho certa ojeriza por alguns dos membros, tamanha a quantidade de bosta racista, homofóbica e misógina já feita e dita por eles. Dito isso, vamos pro que interessa.

A trajetória internacional da CL, por incrível que pareça, tem sido bem coerente para uma idol oriental. Talvez por a YG ser uma gravadora que, mesmo na Coréia do Sul, tome decisões de marketing parecidas com o que é feito na América do Norte, que é spamar os lançamentos de seus atos durante um período de divulgação e, após isso, dar um tempo para sua imagem descansar (o tão famigerado porão, que tantos reclamam), o modo como estão gerindo a imagem da rainha vesga mundo a fora tem sido bem aceitável.

Tudo começou com um feat. com o Skrillex e o Diplo em 2014, que certamente abriu espaço para a dobradinha se repetir com essa mesma galera em MTBD, no álbum do 2NE1 ainda em 2014, e na horrivilhosa Doctor Pepper, em 2015. Usarem ela em Daddy, do PSY, o ser coreano mais conhecido do planeta, também contribuiu para que sua popularidade fora fandom crescesse. Nesse meio tempo, teve também aparição em vídeo da Carly Rae Jenpsen, VMA e em documentário do Jeremy Scott.

Imagino que a intensão por trás de Hello Bitches tenha sido criar algum tipo de viral, mas nem rolou, então por isso estão qualificando Lifted como o debut single "de verdade". Só espero que o Scooter Braun (que é o mesmo empresário da Ariana Grande, do Justin Bieber, da Tori Kelly e de outros) de um jeito de enfiá-la em premiações televisionadas, Late Shows, na Ellen DeGeneres, no SNL e em outros veículos possíveis da mesma forma que ele faz com todos que assinam com ele, ou não vai rolar isso chegar ao conhecimento do público americano médio.

O que nos leva ao mais importante de tudo: a música.

"Lifed" deve ser a melhor coisa que ela já lançou sem o 2NE1. Não que  exista alguma competição, visto as trasheiras que eu listei dois parágrafos acima, mas é que isso está realmente bom. O instrumental minimalista que vai crescendo e ganhando diferentes matizes conforme as estrofes passam, o refrão fácil de lembrar e extremamente pegajoso, os "eeh, eeeh eeeh eeh" soltos aqui e ali, dando todo um clima rap old school à faixa, o modo como ela adquire elementos de reggae sem forçar a barra, absolutamente tudo funciona.

Estou até impressionado por optarem debutar ela com uma canção tão calcada no Hip Hop em vez de entupirem-na de sintetizadores e levarem tudo prum lado mais Dancehall/Tropical House/PBR&B que nem TODO MUNDO tem feito na Europa e nos EUA. Achei ousado.

Okay, já endossei bastante a pílula, já falei tudo o que de bom achei disso, certo? Hora de problematizar...






Quem foi o débil mental que teve a ideia idiota de tentar fingir que a CL é negra?

Eu, sinceramente, não entendi se isso foi de caso pensado, com os engravatados tentando atrelar à imagem da vesga uma credibilidade "das ruas" apenas por ela sair dançando e apertando um baseado toda fashionista com vários negros incríveis e talentosos, ou se todos da equipe por trás dela vivem em uma redoma de vidro e não entendem porra nenhuma da cena Pop mundial, de questões culturais e de todos os debates que andam ocorrendo atualmente, já que essa foi uma apropriação cultural fodida.

Calma, queridos, explicarei.


Por conta de uma série de acontecimentos ocorridos do ano passado para cá nos EUA, a cena musical Pop ocidental tem, graças a Deus, passado por algumas mudanças de pensamento. Dentre os acontecimentos, posso listar a não condenação de um policial branco que assassinou um jovem negro, a falta de indicações a atores negros nas duas últimas edições do Oscar e, numa visão mais geral, o empresário Donald Trump concorrendo a presidente.

Felizmente, a resposta artística a isso tem vindo forte. Tivemos o lançamento dos álbuns "To Pimp a Butterfly", do Kendrick Lamar e "Lemonade", da Beyoncé. Além disso, tivemos uma série de pessoas da mídia não só se posicionando a favor do movimento Black Lives Matter, como escancarando e indo contra a apropriação cultural.

Qualquer um que acompanhe o mundinho pantanoso da música Pop pode presenciar a briga entre as rappers Azealia Banks e Iggy Azelia por conta disso. Coloquem nessa lista nomes como Miley Cyrus, Taylor Swift, Katy Perry, Justin Bieber e Zayn, frequentemente acusados de desrespeitar a cultura afro, mesmo utilizando-a de maneira lucrativa em suas músicas, videoclipes, feats etc.

Negros usando negros para enaltecer a cultura negra, dando espaço para negros sem precisarem de brancos, pela graça de kami-sama, tem sido algo cada vez mais frequente - e não só nos EUA. Por exemplo, confiram os dois videoclipes abaixo...



O duo britânico AlunaGeorge é formado pela cantora e dançarina Aluna Francis, negra, e pelo compositor e multi-instrumentista George Reid, branco. Para o clipe de "I'm In Control", eles optaram por apenas a Aluna aparecer, já que todo ele todo é sobre uma comunidade negra.

O mesmo para o vídeo de "Girls Like", do rapper Tinie Tempah, que é uma colaboração com a cantora sueca Zara Larsson (que escreveu "Cash me Out", do F(x), só pra contextualizar), branca. Para ele, apenas a voz dela aparece, permitindo que Tinie brilhe junto de vários outros negros incríveis, que dançam pra caralho e se divertem num dia ensolarado.

Mas ai vocês podem estar se perguntando, "Qual o problema da CL nisso tudo?"

O problema é que, sabendo de tudo isso dito ai, o gosto final que fica na boca ao terminar de assistir o MV de "Lifted" é que a CL está se apropriando da cultura negra e, pior, usando o movimento Black Lives Matter apenas por "estar na moda", para se enquadrar, fazer uma boa imagem, chamar atenção.

Mesmo ela não sendo branca e orientais também terem sofrido pra cacete na mão dos brancos ao longo da história mundial, não fica legal, caras. Se queriam atribuir uma imagem "dos guetos" pra ela, por que não usar um elenco totalmente formado por mestiços orientais que vivem nos EUA? Melhor ainda se colocassem também latinos, junto com negros e demais etnias que vivem à margem, que sofrem diariamente pela cor da pele e origem. Mas não só negros, não tentando se aproveitar de um movimento que não a pertence apenas pelo lucro.

Isso não só seria mais socialmente adequado, como bem mais financeiramente inteligente - visto o declínio da carreira da Iggy Azalea após hitar com Hip Hop e se omitir em pautas sociais do inicio do ano passado pra cá.

Pelo menos não pintaram a pele dela de negra como fizeram com a Christina Aguilera nos anos 2000...
Enfim, Black Jacks, não levem isso como um ataque pessoal. Sério, não me metam nesses mimimis de fandom, não sirvo pra isso, nunca servi. Até porque, nem sei o quão a CL tem de liberdade para dizer como quer ou não conduzir sua carreira. Entretanto, é necessário sim criticar isso tudo.

O videoclipe de "Lifted" foi, escancaradamente, de uma tremenda falta de sensibilidade notável por todos os envolvidos, além de uma burrice escatológica e uma demonstração de total falta de conhecimento do que é discutido na indústria Pop atualmente. E isso, capopeiros, é muito mais do que guerra entre fandons ou defender bias/ultimates nas redes sociais, ok? É questão de empatia...

2 comentários:

  1. Olá, eu pensei muito antes de comentar, pois hoje na internet é um crime ter uma opinião divergente das demais, porém resolvi deixar esse medo de lado e comentar.
    Creio que você tenha sido um pouco infeliz em seu julgamento ao dizer que 'com os engravatados tentando atrelar à imagem da vesga uma credibilidade "das ruas" apenas por ela sair dançando e apertando um baseado toda fashionista com vários negros incríveis e talentosos,'', não entendi se você associou os negros a maconha ou se quis dizer que a CL associou os negros a maconha, fiquei confusa.
    Sobre apropriação cultural no MV, também não entendi.
    Acho que não é novidade para você, mas o que a Cl canta é Rap/Hip-Hop, ambos criados por negros (e latinos, mas irei focar nos negros), o estilo do gueto, vamos dizer assim. Esse estilo inclui a dança de rua, a dança Street, e todas as suas características. Inclui as roupas que ela usa no MV, o modo como ela está cantando e todas as outras coisas.
    O que chamou minha atenção foi que eu acho que você não viu o Mv direito, pois se tivesse visto com olhares atentos, perceberia que não há só negros no mv. Tem pessoas de outras raças, como asiáticos e brancos (pelo que vi).
    Outra ponto importante, o qual posso considerar como uma infelicidade em sua matéria, é o fato de você julgar como apropriação cultural o fato dela estar dançando e cantando na rua( e como eu disse, isso faz parte do estilo rap/hip-hop), e principalmente, o fato dela estar junto de negros se divertindo. Ok, eu poderia julgar isso como um racismo de sua parte? Pois é como se você dissesse que negros só podem andar com negros, brancos com brancos e por aí vai - ficaria contraditório, visto que no final você disse que ela poderia fazer um mix com as raças oprimidas-, esta divisão é mais do que errada. Tenho em meus pensamentos que somos todos iguais e que devemos viver todos juntos e misturados mesmo, isso é lindo, porque cada cultura é diferente e vasta, o mundo pode se beneficiar disso, mas voltando ao assunto, essa parte ficou mal explicada.
    Espero que eu esteja me expressando bem, porque não quero ser mal interpretada.
    Realmente aparecem mais negros do que as outras raças no MV, entretanto esse é o estilo deles e porquê não colocá-los no vídeo? É errado ter um vídeo com negros, sem ser feito por um negro? Onde você quis chegar?
    Ah, tem o fato dela estar dançando entre dois negros, mas desde quando dançar entre dois negros faz de uma pessoa negra? Se fosse assim, as pessoas mudariam de raça o tempo todo, principalmente em festas.
    Gostaria que revesse um pouco seus conceitos, porque você está me soando mais racista do que defensor dos negros, visto o seu post nada empático.

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    Respostas
    1. Olá, querida leitora anônima.

      Primeiramente, por favor, nunca se sinta intimidada sobre comentar algo aqui (ou em qualquer outro lugar). A grande graça da internet é existir esse debate de ideias. Te garanto que nunca fico ofendido com respostas que vão contra a minha opinião. Pelo contrário, gosto disso e de aprender com o que as pessoas acreditam. ;)

      Sobre a confusão com negros, a maconha e a apropriação cultural, na verdade, nem um, nem outro. O que quis dizer é que, para esse debut, achei ruim o fato do staff da CL ter tentado atribuir à imagem dela essa identidade mais "das ruas" apenas por ela sair dançando e fumando com negros, como é feito em videoclipes de rappers americanos negros. Digo isso, pois todo o visual desse estilo foi algo que foi criado para dar força e empoderamento à comunidade negra e achar que fica meio bizarro a CL, que não é negra, usar disso sem ser uma negra, sem sofrer o preconceito que negros sofrem, apenas para lucrar em cima de um estilo.

      Sim sim, eu sei que tiveram brancos no clipe (inclusive, a parte que mais gostei foi aquela com os caras subindo o muro correndo), mas a proporção foi bem menor.

      Fico feliz que você tenha o pensamento de que todos somos iguais e que devemos viver todos juntos e misturados mesmo, porque cada cultura é diferente e vasta e o mundo pode se beneficiar disso. É o mesmo pensamento que o meu. Entretanto, como muito vem sendo debatido nos EUA e na Europa, as coisas acabam não acontecendo dessa forma, com brancos sendo colocados em papéis de destaque e pessoas de outras raças e etnias não conseguindo protagonismo mesmo em artes que foram criadas por elas (Hip Hop, por exemplo). Com a CL em um MV retratando uma comunidade negra (já que a maioria do elenco é negro) não sendo negra, isso acaba por roubar o protagonismo de uma luta que vem ocorrendo por artistas negros apenas para ficar "na moda".

      Não, eu não quis dizer que ela mudaria de raça por dançar entre dos negros. Eu quis dizer que, durante todo o videoclipe, o que pareceu é que ela quis passar a imagem de uma negra, mesmo sendo oriental.

      Por favor, entenda que não há certo ou errado entre as nossas opiniões, elas são apenas diferentes. E é sempre bom que haja o debate sobre isso. Muito obrigado pelo comentário... =)

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