sexta-feira, 29 de julho de 2016

CARTOON REVIEW | BoJack Horseman


A vida tem umas coincidências que podem ser bem chatas, tipo outro dia quando fui na padaria de manhã cedo e calhou de uma vizinha fofoqueira estar lá e querer puxar papo comigo, ou quando fui ao cinema outro dia e essa mesma vizinha aparecer por lá com os filhos malcriados e querer puxar papo comigo, ou quando fui atender o entregador de pizza anteontem e, na janela do outro do lado da rua estava sabe quem? Sim, essa mesma vizinha.

Parando pra pensar, acho que estou sendo perseguido, mas isso é assunto para um outro post, pois quero ressaltar também que a vida pode nos proporcionar ótimas coincidências, tipo calhar de eu receber um mês grátis da Netflix justamente quando estou de férias da faculdade/trabalho. Ou seja, pude ficar em dia com todas as séries pedantes possíveis e emendar maratona atrás de maratona durantes vários dias seguidos.

Aproveitando a plataforma, pude assistir o que me faltava de um dos desenhos americanos mais legais desses últimos anos e, de quebra, conferir os novos episódios lançados na sexta passada. Sim, meus queridos, estou falando de BoJack Horseman. Por isso, resolvi reunir aqui meus comentários sobre as três temporadas já disponíveis nesse review. Então, cliquem abaixo para ler, ou todo o sucesso da vida de vocês ficará resumido a uma série horrível que todos tem vergonha de gostar... :v


Eu sempre tive uma quedinha por animações para o público adulto com personagens que demonstram algum tipo de tendência a autodestruição. É assim com a deliciosa (e injustiçada) "Mission Hill", com "Bob's Burguer", com"Futurama" e várias outras. Além disso, o fator no-sense para esse tipo de produção é sempre bem-vindo, tanto que "Os Oblongs", "Aqua Teen" e boa parte do catálogo do Adult Swin sempre será bem-vindo. E BoJack tem ambos esses itens.

O desenho conta a história do astro de um papel só BoJack Horseman, um cavalo (!) que interpretou o protagonista de um sitcom infantil nos anos 90 chamado Horsin' Arround, onde ele adota três órfãos de diferentes idades, vivendo situações corriqueiras na nova família.

Atualmente, rico e vivendo dos royalties do seriado, o cavalo encontrasse em um momento na carreira onde ninguém na mídia importa-se com sua existência, não conseguindo papéis em lugar nenhum, sem ter formado uma família, feito muitos amigos e viciado em álcool, cigarro e outras drogas. Suas únicas companhias são o Todd, um humano agregado folgado, e sua agente, a gata (!!) Princess Carolyn.


Planejando um retorno triunfal, ele resolve lançar um livro de memórias. Porém, sua incrível capacidade de não dar a mínima para prazos o obriga a trabalhar com uma ghostwritter, a humana Diane, que namora o labrador (!!!) Mr. Peanutbutter - que estrelou um seriado com a mesmíssima premissa que ele nos anos 90.

E toda a primeira temporada segue a interação entre o BoJack e a Diane, indo das entrevistas ao lançamento do livro, mas com uma porrada de coisas acontecendo nesse meio tempo, evidenciando o estilo de vida decadente das celebridades em Hollywoo (sem o D mesmo, tá), os vícios dos personagens, os conflitos envolvendo seus passados, jogadas de marketing e muito mais.

A segunda temporada mostra os frutos colhidos por conta do lançamento do livro relatando a vida de BoJack. Ele está de volta ao jogo e começa a fazer aparições aqui e ali, reconquistando aos poucos sua fama até que, finalmente, consegue a aprovação de um projeto para interpretar o papel que sempre quis fazer: o do cavalo Secretariat, sucesso em pistas de corrida nos anos 70, suicidando-se mais tarde por problemas pessoais.

Finalmente, na terceira, após o sucesso do filme, vemos BoJack e sua equipe na corrida ao Oscar, fazendo de tudo para chegar ao prêmio e atingir o que é a maior conquista para um ator.


Entretanto, é claro que as coisas não são simples assim e temos inúmeras tramas nesse meio tempo, que tornam toda a experiência inesquecível. Vemos o quanto BoJack sofreu na infância e tudo o que aconteceu até que ele chegasse naquele estado horrível de espírito, desprezando e destruindo todas as suas relações. Acompanhamos lado a lado como pode ser triste a vida de uma jornalista caso não consiga os contatos certos para entrar no ramo através dos olhos da Diane, tendo que se contentar em escrever livros que os outros não saberão ter sido feitos por ela, administrar redes sociais de sub-celebridades e depender financeiramente de seu marido.

Falando em marido, temos Mr. Peanutbutter, um adulto que se comporta como adolescente deslumbrado pela fama, que não sabe cuidar de seu legado e acaba por abrir negócios absurdos ao lado de Todd, que não tem qualquer rumo na vida e sempre tem seus sonhos destruídos por alguém.

Por fim, temos a Princess Carolyn, minha personagem favorita, representando o arquétipo dos agentes/empresários que dedicam a vida aos clientes, mas que, de maneira nenhuma, são recompensados, creditados ou valorizados devidamente. Além do fato de, quando do sexo feminino, serem cobradas por ter uma família, filhos, taxadas como egoístas caso adiem ou não queiram isso e etc.


A melhor crítica é dada através da Sarah Lynn, a estrela mirim da série Horsin' Arround. Por ter crescido sob os holofotes, ido de pequena atriz a estrela teen em poucos anos, explodindo nas paradas e tornando-se um ícone sexual em sua geração, a menina afunda-se em drogas, envolvendo-se em vários problemas, surtando. Há um pouco de Britney Spears, Lindsay Lohan, Miley Cyrus e de todo o estigma envolvendo estrelas juvenis nela. O modo como a indústria tornou sua vida o que é - e como o BoJack influenciou tudo isso -, é, no mínimo, bizarro, para não falar angustiante.

E o mais perturbador é que os outros dois personagens da série, por serem um pouco mais velhos, acabaram tendo rumos diferentes na vida, com a irmã mais velha tornando-se uma atriz de teatro internacionalmente conhecida e o filho do meio acabar vivendo uma vida normal, fracassando longe da fama.

Há alfinetadas nos exageros da imprensa em busca de audiência, no estilo de vida americano, no modo como o público endeusa as celebridades, no quão descartável e genérica, por vezes cruel, a indústria do entretenimento pode ser e no preconceito com estrangeiros. Tudo através de situações absurdas e exageradas, mas, ainda assim, aceitáveis dentro dos contextos.


BoJack Horseman é um desenho cuja realidade apresenta seres humanos convivendo igualmente como animais antropomórficos, que reproduzem entre si com normalidade. Porém, não há como não nos identificarmos com tudo aquilo. A metáfora é espetacular, bem executada através de ótimas piadas. Foram poucas as vezes (na vida) em que eu gargalhei assistindo alguma coisa desacompanhado. Essa foi uma delas.

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