terça-feira, 19 de julho de 2016

ANIME REVIEW | Nurse Witch Komugi-chan R


Dia desses, estava eu tentando encontrar o nirvana enquanto praticava ioga num parque aqui perto de casa, pois queria me conectar com a natureza após ter ouvido o mais recente álbum do Fifth Harmony e entender o quanto tudo é descartável nessa vida. Então, enquanto me esticava na posição "cão com a cara no chão", pude prestar atenção na conversa de duas meninas otacas de cabelo colorido que liam mangás atrás de um arbusto próximo.

O assunto, basicamente, era o quanto o estilo Shoujo Magical Girl as enojava, visto as abordagens bobas, superficiais e estereotipadas dadas às meninas pelos autores em obras como Sakura Card Captor, Sailor Moon e Madoka (!!). Além disso, uma delas, defendeu que "mulheres de verdade deveriam buscar obras de maior complexidade, como One Piece, Bleach e Nanatsu no Tanzai".

Mas hein?

Viagens minhas de lado, quis aproveitar esse engate para trazer mais uma deliciosa resenha de anime da temporada de inverno. E é claro que teria a ver com esse tema, ou eu não me daria ao trabalho de dividir minhas situações cotidianas como fiz acima. Confiram ai meus dois centavos sobre um candidato fortíssimo a melhor animação de 2016, Nurse Witch Komugi-chan R:


Antes de tudo, vamos deixar umas coisas bem claras. Diferente de 96,7% dos caras que começaram a assistir animes entre os anos 90 e 2000, não tenho vergonha nenhuma de admitir que animes de meninas com poderes mágicos fizeram parte da minha infância, que eram bons e que eu curtia bastante. Séries como Sakura Card Captors e Sailor Moon, na verdade, foram divisoras de águas aqui no Brasil, dando espaço para que garotas se vissem como heroínas num universo quase sempre dominado por caras superpoderosos, de armaduras, espadas etc.

Dito isso, Nurse Witch Komugi-chan R expressa bem esse movimento da animação nipônica. Porém, o que de fato transformou esse em, até agora, o melhor anime do ano foi algo que poucos tem coragem de fazer e, quando fazem, menos ainda são os que fazem bem: rir de si mesmo, rir de seu gênero, de seus fãs, rir da obsessão do Japão com adolescentes idols, da própria indústria e de todo o resto em volta.

Explicarei.

O desenho conta a história da Komugi Yoshida, uma idol extremamente atrapalhada, mas que sonha em, um dia, lotar uma versão fictícia do Tokyo Dome, um estádio famoso lá do Japão. Ela trabalha para a mesma agência/gravadora da melhor amiga dela, a Kokona Saionji, uma das mais famosas e bem sucedidas da atualidade, e da gatinha andrógina Tsukasa Kisaragi, também muito requisitada.


As coisas andam tão feias para a Komugi que, em geral, todos os trabalhos que ela consegue envolvem não mostrar o rosto, como distribuir folhetos fantasiada ou fazer figuração como corpo em cena de crime em doramas. Entretanto, as coisas começam a mudar (não para melhor, necessariamente) quando, num dia qualquer, uma criatura misteriosa e ferida chamada Usa-P aparece na sua frente, e ela a ajuda. Como retribuição, Usa-P pergunta se Komugi quer ser uma Garota Lendária Super Enfermeira capaz de usar poderes mágicos para enfrentar monstros que estão atacando a cidade e reuni-los em cartões mágicos.

Só pela sinopse acima, podemos entender que, basicamente, isso aqui segue a cartela básica de qualquer anime do estilo, tendo 1) uma garota engraçadinha; 2) um bichinho místico que dará poderes à sua parceira; 3) transformações cintilantes em heroínas coloridas; 4) monstros malvados que serão guardados em cartas.

Só que as coisas adquirem um nível muito mais épico com o fato de, na verdade, tudo isso ser uma paródia escrachada, explicitando todos os defeitos e incoerências dos animes de magical girls. A Komugi-chan quase sempre faz merda, eles sempre inventam um golpe novo aleatório e zombam da facilidade como isso é inserido, os monstros são os mais absurdos possíveis.


As demais garotas mágicas inseridas, uma Super Empregada e uma Super Freira, também são caricaturas do quanto o fato de estarem sob uma máscara, embora ela não exista, permite que elas desenvolvam uma personalidade completamente oposta as que são obrigadas a seguir na vida real/idol (no caso, as duas são a Kokona, que vira uma bitch dominadora bondage e a Tsukasa, que pode ser uma menina de verdade em vez de fingir ter um pênis) e por ai vai.

E o épico final tosco clichê, quando surge dos Estados Unidos (hahahaha, olha essa crítica) uma nova idol, que começa a roubar os trabalhos de todas as gatas, além dela se revelar uma também garota mágica e, além de tudo, ser o último e mais poderoso monstro de todos os tempos e, apenas pela sacanagem, tudo isso ser resolvido de uma forma tão absurda como foi, é apenas a cereja do bolo.

A grande quantidade de dedos nas feridas aqui tornaram todo o pacote um dos troços mais cataclísmicos e sensacionais se tratando de Japão na minha vida inteira. Rir de si mesmo, de seus defeitos e do seu fracasso é algo que todos deveríamos fazer...

Tipo a fucking Xuxa aqui no Brasil, aprendam...

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