quarta-feira, 29 de junho de 2016

MOVIE REVIEW | Zootopia


Olá, pessoas que achavam que eu havia me embrigado a ponto de ter perdido a senha desse blog, acreditar que sou um animal predador e que vivia em uma sociedade onde bichos conviviam em harmonia e humanos nem sequer haviam evoluído. Como estão?

Após esse curto período de férias forçadas e maratonas de reality shows românticos da MTV, estou de volta, renovado, como uma fênix em brasa para tomar o meu lugar de maior blogueiro pedante comentarista de desenhos animados de-todos-os-tempos.

Então, para recomeçar com o pé de coelho direito, vamos à delícia mais comentada desse primeiro semestre de 2016 que por preguiça eu não fui assistir no cinema enquanto estava em cartaz: Zootopia.


A minha relação com as animações da Disney em CGI fora da Pixar sempre foi a mais aleatória possível. Enquanto muitos de meus amigos ojerizam longas como "O Galinho Chicken Litte", "Bolt: Supercão", "Detona Ralph" e as demais outras produções do estúdio, tenho simpatia por elas, embora não mudem minha vida. Já "Frozen - Uma Aventura Congelante", "A Família do Futuro" e o superestimado "Operação Big Hero" estão entre aqueles filmes que assistimos aqui em casa várias vezes ao ano. Achar uma bosta mesmo, acredito que só "Enrolados".

Dito isso, para mim, quando se mete a produzir animações tridimensionais, a Disney é o equivalente cinematográfico à Lady Gaga: todos esperam muita coisa, a própria faz uma puta marketing de vanguardista e quebradora de barreiras, mas, no fim, temos apenas execuções divertidas e pouco diferentes do habitual. O que nos leva a Zootopia.

Não há aqui uma mudança brusca na galera que está por trás. A direção ficou por conta dos mesmos que fizeram a readaptação de Rapunzel com o Luciano Huck (HAHAHAHA, eu sempre rio com isso), do vilão de videogames com a garotinha fofa e do cachorro que achava ser herói - no caso, Byron Howard e Rich Moore. Já o roteiro, foi feito pelo mesmo da série "Penn Zero", o Jared Bush. Então, é fácil saber que Zootopia será sobre personagens complexos que se encontrarão e, juntos, entenderão o quanto o mundo e os contextos onde cresceram os afetaram. Isso tudo numa historinha que envolverá situações aventurescas, com vilões não-óbvios, piadas deliciosas e cenários coloridamente gigantescos e pré-dispostos a serem explorados em perseguições.

É é isso ai mesmo. Porém, quem disse que isso é ruim?


No caso, os personagens complexos são a coelhinha Judy, sonhadora, que veio de uma fazenda e de uma criação que dita que coelhos - e demais mamíferos pequenos - devem se portar como presas e não desafiar o mundo, mesmo que isso não esteja escrito em lugar nenhum, e o raposa Nick, cuja espécie carrega o esteriótipo de malandra, de não confiável. Judy se torna uma policial na cidade de Zootopia, mas descobre o quanto o preconceito alheio pode dificultar as coisas. Então, puxando uma oportunidade do momento, acaba entrando numa missão para achar animais desaparecidos.

Aah, e o Nick acaba metido nessa, pois ele é o elo malandro aproveitável por ela, que não pode quebrar as regras para conseguir o que quer, mas pode chantageá-lo para que ele justifique os atos dela. E é ai que o filme engrena.

Remetendo à qualquer dupla de tiras (sim, eu assistia filmes dublados no SBT) de longas policiais dos anos 80, os dois exploram a cidade em busca de pistas, mas de uma maneira muito mais bem humorada e politicamente incorreta do que esperaríamos do padrão Disney de puritanismo. Da icônica cena deles burlando as regras com as preguiças até a referência à "Poderoso Chefão" com tortura no gelo, em tudo temos um ar mais "errado" que caiu como uma luva para o andamento da trama, dando mais nuances aos personagens que, vá lá, os arquétipos óbvios de vilão e mocinho em Frozen.


Aliais, fico feliz em constatar que Zootopia conseguiu ter um dos melhores roteiros da Disney em anos. Poderia ser só uma "animação truque", onde explorariam um universo interessante, mas sem uma trama que envolvesse de verdade. Só que é quase o contrário, pois todo aquele cenário poderia ser completamente diferente, mas a história de uma dupla engraçadinha desvendando um mistério onde alguém quer se aproveitar da separação de classes para lucrar ainda colaria. Claro, caso os personagens fossem tão carismáticos quanto os animais aqui.

Além disso, fica ai uma ótima lição de como tratar de temas delicados de uma maneira sutil e agradável de assistir. O filme fala de diferença de classes sociais, de como políticos podem tirar proveito de situações para autopromoção, de distorção dos fatos feita pela imprensa, de bullying, de ir contra o que as pessoas acreditam que você deve ser, sobre se descobrir e acreditar em seus sonhos.

Acredito que o melhor exemplo disso é quando a gazela (uma presa) cantora dublada pela  Shakira  vai em praça pública protestar contra preconceito os animais predadores, já que todos devem ser tratados igualmente, mesmo que a opinião pública ou bancadas políticas digam o contrário.

Porém, a sutileza é tamanha que podemos pescar tudo isso através das aventuras atrapalhadas dos protagonistas.


No final, o que fica é aquele gosto delicioso raro de quando a Disney acerta e entrega algo acima da média. A impressão que tenho é que, em meio a tantos outros longa-metragens sobre animais antropomórficos lançados anualmente, Zootopia ocupará um lugar especial na cabeça de todos nós daqui há alguns anos.

E que venha Moana... ;)

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